Quando uma criança recebe o diagnóstico de dermatite atópica, uma das orientações mais frequentes é o uso diário de hidratantes.
E é justamente aí que surge uma dúvida muito comum:
“Mas é só um creme?”
“Precisa passar todos os dias?”
“Mesmo quando a pele está boa?”
“Se o problema é a inflamação, por que o médico insiste tanto no hidratante?”
Para responder essas perguntas, precisamos entender primeiro o que acontece com a pele na dermatite atópica.
O que é a barreira cutânea e por que ela importa na dermatite atópica
A pele não serve apenas para revestir o corpo.
Uma de suas funções mais importantes é atuar como uma barreira entre o organismo e o ambiente.
Ela ajuda a manter a água dentro do corpo e dificulta a entrada de substâncias irritantes, alérgenos, microrganismos e outros agentes potencialmente agressivos.
Uma forma simples de imaginar isso é pensar em uma parede.
As células da pele seriam os tijolos.
Entre esses tijolos existe uma espécie de “massa corrida” formada por água e gorduras que ajuda a manter tudo unido, preenchido e vedado.
Quando essa estrutura está íntegra, a pele consegue desempenhar adequadamente sua função de proteção.
Como a dermatite atópica compromete a barreira da pele
Na dermatite atópica, essa barreira não funciona tão bem quanto deveria.
Existem alterações em proteínas importantes da estrutura da pele e também em substâncias que ajudam a preencher os espaços entre as células.
Entre essas substâncias estão água e gorduras naturais que ajudam a manter a pele hidratada e protegida.
Quando a quantidade ou a organização desses componentes é alterada, a pele perde parte da sua capacidade de reter água e de se defender do ambiente externo.
O resultado é uma pele mais seca, mais sensível, mais vulnerável à irritação e mais propensa à inflamação.
Hábitos de banho que pioram a dermatite atópica
Voltemos à comparação da parede.
Se a vedação entre os tijolos já está fragilizada, qualquer coisa que remova ainda mais dessa proteção pode agravar o problema.
É por isso que alguns hábitos aparentemente inofensivos podem piorar a dermatite atópica:
- água muito quente;
- banhos prolongados;
- esfregar a pele com força;
- uso excessivo de sabonetes;
- buchas e atrito excessivo.
Pense em uma panela engordurada.
Quando usamos água quente e detergente, a gordura se desprende com facilidade.
Com a pele acontece algo semelhante.
A água muito quente, o excesso de limpeza e o atrito removem parte das gorduras naturais que ajudam a proteger a barreira cutânea.
Em uma pessoa sem dermatite atópica, a pele geralmente consegue repor essa proteção com mais facilidade.
Na dermatite atópica, essa reposição já é naturalmente mais difícil.
Por isso, o impacto desses hábitos costuma ser maior.
Dermatite atópica sem lesão visível: a doença continua ativa?
Esse é um dos conceitos mais importantes para entender a doença.
Muitas pessoas imaginam que a dermatite atópica só existe quando a pele está vermelha, áspera ou com feridas.
Mas a doença pode permanecer ativa mesmo quando as lesões não são facilmente visíveis.
Hoje sabemos que alterações da barreira cutânea podem persistir mesmo nos períodos em que a pele parece saudável.
Em outras palavras:
A pele pode parecer normal antes de voltar a funcionar normalmente.
Isso ajuda a explicar por que a dermatite costuma reaparecer nos mesmos locais e por que o tratamento de manutenção continua sendo importante mesmo fora das crises.
Coceira sem vermelhidão: o que pode estar acontecendo
Essa é uma situação extremamente comum.
A criança reclama de coceira.
Coça principalmente à noite.
Fica inquieta.
Mas os pais observam a pele e não enxergam placas vermelhas, feridas ou sinais evidentes de eczema.
Nesses momentos, algumas famílias chegam a pensar que a coceira é exagero, hábito ou “mania”.
Mas a coceira pode surgir mesmo antes das lesões visíveis.
A barreira continua alterada.
A pele continua mais sensível.
As terminações nervosas podem ficar mais reativas.
Além disso, pode existir inflamação microscópica que não é perceptível a olho nu.
Por isso, nem sempre existe uma correspondência perfeita entre o que a criança sente e o que os pais conseguem enxergar.
A ausência de lesões visíveis não significa necessariamente ausência de atividade da doença.
O ciclo vicioso da dermatite: coceira, lesão e inflamação
Quando a barreira cutânea está comprometida, inicia-se um ciclo difícil de interromper.
A pele perde água.
O ressecamento aumenta.
A coceira aparece.
A criança coça.
A pele sofre novas lesões.
A barreira fica ainda mais fragilizada.
A inflamação aumenta.
E a coceira se intensifica.
É um círculo vicioso.
Grande parte do tratamento da dermatite atópica busca justamente interromper esse ciclo.
Qual é o real papel do hidratante na dermatite atópica
Essa talvez seja a principal mensagem deste artigo.
O objetivo do hidratante é ajudar a restaurar parte da função de barreira da pele.
Quando a barreira funciona melhor:
- a perda de água diminui;
- a pele fica menos vulnerável;
- a entrada de irritantes é reduzida;
- o ressecamento melhora;
- a coceira tende a diminuir;
- as crises podem se tornar menos frequentes.
Em muitos pacientes, uma barreira mais saudável também contribui para reduzir a necessidade de medicamentos utilizados para controlar surtos.
Por isso, os hidratantes não são apenas um complemento do tratamento.
Eles atuam diretamente em uma das alterações centrais da doença: a fragilidade da barreira cutânea.
Existe outra diferença importante entre os hidratantes e muitos dos outros tratamentos utilizados na dermatite atópica.
Medicamentos como corticoides costumam ser usados para controlar uma crise que já está acontecendo.
Os hidratantes têm um papel diferente. Parte de sua função é tentar evitar que a próxima crise aconteça.
Em outras palavras, eles não atuam apenas como tratamento de resgate. Também fazem parte da estratégia de manutenção da doença.
O que dizem as diretrizes atuais sobre hidratantes e dermatite
Mesmo com o surgimento de tratamentos modernos, incluindo imunobiológicos e medicamentos altamente específicos, os hidratantes continuam sendo recomendados por todos os principais consensos atuais sobre dermatite atópica.
Isso inclui diretrizes recentes da Academia Americana de Dermatologia, da Academia Americana de Pediatria, atualizações da Sociedade Brasileira de Dermatologia e consensos internacionais publicados nos últimos anos, incluindo documentos já desenvolvidos na era dos imunobiológicos e das terapias-alvo.
Ou seja, não estamos falando de uma recomendação antiga que permaneceu por tradição.
Mesmo com toda a evolução dos tratamentos modernos, a reparação da barreira cutânea continua sendo considerada um dos pilares fundamentais do manejo da doença.
Além disso, pesquisas mais recentes mostram que os benefícios dos hidratantes vão além da hidratação.
Dermatite atópica e Staphylococcus aureus: a pele como ecossistema
A pele saudável abriga naturalmente diversos microrganismos.
Isso faz parte do funcionamento normal do organismo.
Na dermatite atópica, porém, ocorre um desequilíbrio desse ecossistema.
Uma das alterações mais conhecidas é o aumento da colonização por uma bactéria chamada Staphylococcus aureus.
Essa bactéria pode favorecer inflamação e contribuir para a piora das crises.
Quando a barreira cutânea melhora, esse ambiente também tende a se tornar mais equilibrado.
Por isso, os benefícios da hidratação não se limitam à redução do ressecamento.
A melhora da barreira também influencia o microbioma da pele.
Hidratante previne dermatite atópica em bebês? O que a ciência diz
Essa foi uma das perguntas mais estudadas nos últimos anos.
Os primeiros trabalhos geraram bastante entusiasmo ao sugerir que o uso precoce de hidratantes em bebês de alto risco poderia prevenir o aparecimento da doença.
Estudos maiores realizados posteriormente mostraram que a resposta não é tão simples.
Hoje, não existe evidência suficiente para afirmar que o uso rotineiro de hidratantes previna o desenvolvimento da dermatite atópica.
Por outro lado, algumas pesquisas sugerem que a hidratação precoce pode retardar o aparecimento dos sintomas em determinados grupos de crianças.
Essa continua sendo uma área ativa de pesquisa.
Hidratante com ceramidas para dermatite atópica: vale a pena?
As ceramidas são componentes naturais importantes da barreira cutânea.
Por isso, faz sentido imaginar que sua reposição possa beneficiar pacientes com dermatite atópica.
Do ponto de vista biológico, essa hipótese é bastante plausível.
Entretanto, quando analisamos os estudos clínicos, a superioridade consistente de uma formulação específica nem sempre é demonstrada.
Na prática, entre os hidratantes adequados para pele atópica, a regularidade do uso costuma ser mais importante do que diferenças entre marcas específicas.
Por isso, ao escolher um hidratante, fatores como tolerabilidade, aceitação pela criança, facilidade de aplicação e possibilidade de uso contínuo costumam ser tão importantes quanto os ingredientes presentes na fórmula.
Não existe um único hidratante ideal para todos os pacientes.
Creme, loção ou pomada: qual é melhor para dermatite atópica?
As diferenças estão principalmente na quantidade de água e gordura presente na formulação.
De forma geral:
- loções costumam ser mais leves;
- cremes apresentam equilíbrio entre água e gordura;
- pomadas são mais oleosas e mais oclusivas.
Peles muito ressecadas costumam se beneficiar de formulações mais espessas.
Por outro lado, clima, preferência individual e aceitação da criança também influenciam a escolha.
O melhor hidratante é aquele que reúne duas características importantes: ser adequado para a pele atópica e conseguir ser usado de forma consistente.
Quantidade de hidratante na dermatite atópica: o erro mais comum
Essa é uma das maiores dificuldades do tratamento.
Muitas famílias utilizam quantidades menores do que o necessário.
O objetivo não é apenas espalhar uma camada quase imperceptível sobre a pele.
Uma hidratação adequada costuma exigir uma quantidade maior do que a maioria das pessoas imagina.
Após a aplicação, pode permanecer uma fina camada visível por alguns instantes.
Isso não significa necessariamente excesso.
Frequentemente, o produto apenas precisa de mais tempo ou de uma massagem suave para ser absorvido.
Por que o hidratante arde na pele com dermatite atópica?
Essa é uma dúvida frequente.
E uma informação importante merece destaque:
o fato de um hidratante arder não significa necessariamente que ele seja inadequado ou de baixa qualidade.
Durante períodos de inflamação intensa, a barreira cutânea pode estar tão comprometida que até hidratantes formulados especificamente para dermatite atópica provocam desconforto.
Nesses momentos, o problema muitas vezes está menos no produto e mais na própria pele, que se encontra extremamente sensibilizada.
A solução nem sempre é abandonar a hidratação.
Dependendo da situação, pode ser necessário controlar melhor a inflamação, trocar temporariamente a formulação ou utilizar produtos ainda mais simples até que a barreira se recupere.
Em alguns momentos, a pele tolera apenas formulações muito básicas, voltando a aceitar hidratantes convencionais após melhora da inflamação.
Por isso, qualquer mudança deve ser discutida com o médico responsável pelo tratamento.
Banho na dermatite atópica: como ele ajuda ou atrapalha
O banho pode ajudar ou atrapalhar a dermatite atópica.
Tudo depende de como ele é realizado.
Banhos muito quentes, prolongados ou acompanhados de atrito excessivo tendem a remover ainda mais da proteção natural da pele.
Por outro lado, um banho adequado seguido da aplicação rápida do hidratante ajuda a aproveitar melhor a água presente na camada superficial da pele.
É por isso que muitos especialistas recomendam aplicar o hidratante logo após o banho.
O objetivo não é apenas repor água e gordura perdidas ao longo do dia, mas também aproveitar esse momento para reforçar a barreira cutânea.
Então por que insistimos tanto nos hidratantes?
Muitas famílias enxergam o hidratante como um cuidado estético.
Na dermatite atópica, ele funciona de forma mais parecida com a manutenção de uma parede que apresenta falhas na vedação.
Quando essa manutenção é interrompida, a parede continua de pé por algum tempo. Mas as fragilidades permanecem ali.
Mais cedo ou mais tarde, elas tendem a reaparecer.
Os hidratantes não substituem os medicamentos utilizados durante as crises.
Mas ajudam a tornar a pele menos vulnerável.
Uma barreira mais eficiente significa menos ressecamento, menos coceira, menos inflamação e, muitas vezes, menos necessidade de tratamentos mais intensivos.
Mesmo em uma época marcada por medicamentos cada vez mais modernos, a reparação da barreira cutânea continua ocupando um lugar central no tratamento da dermatite atópica.
Os hidratantes não são importantes porque a pele está seca.
Eles são importantes porque a barreira da pele está alterada.
E enquanto essa barreira continuar funcionando de forma diferente, cuidar dela continuará sendo uma parte fundamental do tratamento.
Talvez por isso os hidratantes ocupem um lugar curioso na dermatite atópica: são uma das medidas mais simples do tratamento e, ao mesmo tempo, uma das mais importantes.